quarta-feira, 13 de maio de 2009

"Que aula vagabunda é essa em que não se pode conversar?"

Entrevistei semana passada um educador Vítor Paro, autor de dezenas de livros sobre educação. Sou APAIXONADA por tudo o que ele diz. Ele diz coisas que fazem a gente pensar: que tipo de educação eu quero para meus filhos? Ao mesmo tempo que queremos uma educação libertadora, as amarras do mundo moderno puxam a gente de volta à realidade de provas e avaliações estressantes. Será que é possível conciliar isso tudo? Espero que sim. Abaixo, alguns trechos da entrevista, que, infelizmente, não poderei colocar na íntegra na Rádio Câmara, onde eu trabalho. É uma delícia ouvir tudo o que ele tem a ensinar sobre educação. Vou passar para vocês um pouco do que conversamos.

Para Vítor Paro, não existe evasão escolar, mas uma verdadeira expulsão dos alunos das escolas.

"Os alunos são expulsos da escola. Os alunos, os pais, querem estudar. Acontece que a escola é muito ruim, a escola, salvo raras exceções, não atende às necessidades e aos anseios nem da população e muitíssimo menos dos alunos. Então se um lugar que é a escola, que seria um centro de cultura, das coisas mais necessárias e que o homem mais tem interesse, que é apropriar-se de conhecimentos, valores, ciência, filosofia, artes, compor a sua personalidade, transformar-se. Se esse lugar é recusado pelo aluno, é porque esse lugar não está atendendo a esses objetivos."

Vítor Paro destaca que a escola usa métodos de séculos atrás, sem conseguir construir no aluno o desejo de aprender. Levar o aluno a aprender a querer aprender é o primeiro mandamento da didática.

"A própria escola que é organizada em salas de aula já é um modelo antigo. Há mais de 70 anos, foram feitas pesquisas - quem lê Piaget, Vygotsky - esse pessoal todo do século 20, foram feitas pesquisas que a pior forma de ensinar uma criança, até por volta de 11, 12 anos, é alguém que explica e ela que ouve. É a pior forma, mesmo conhecimentos. Suponhamos que a escola devesse passar só conhecimentos, que é o que a nossa escola se propõe, mesmo isso precisaria ser passado de uma forma integral, de uma forma interessante, de uma forma que levasse a criança a querer aprender. E a pior forma de ensinar é botar as crianças sentadas, isso não é forma de ensinar, isso é um sacrifício."

Vítor Paro diz que é um crime de lesa-pedagogia colocar crianças sentadas e confiná-las numa sala de aula durante 4, 5 horas por dia. Para o educador, essa é uma forma de fazer com que a criança odeie o ensino. Ele destaca que a escola não tem sucesso em ser um centro de cultura para os alunos. A escola não é apenas uma comunicadora, destaca Vítor Paro. Mas ele lamenta que a educação no Brasil seja chefiada por pessoas que nunca educaram e não entendem nada de fases de desenvolvimento infantil. A escola é muito mais do que comunicar.

"Comunicar é muito fácil para quem já está educado, para quem já está querendo ser comunicado. Ensinar no ensino superior com pessoas acima de 18, 20, 30 anos, é muito fácil, não precisa saber muito sobre educação, nem entender muito de didática. Você sabendo bem o programa, tendo um ambiente agradável e conseguindo cativar o aluno, você consegue transmitir conhecimento. Mas veja: isso não é educação no sentido que nós temos que ter na educação fundamental."

"Para crianças é muito mais difícil. Inclusive é um absurdo que um professor que ensine no ensino fundamental ganhe menos que quem ensina no ensino superior. Quando o trabalho dele é muito mais difícil, requer muito mais conhecimento, especializado de psicologia, antropologia, aprofundamento no conhecimento de como as pessoas pensam, de como se faz as pessoas pensarem, como se leva as pessoas a se apropriarem de valores propícios à cultura. Precisa conhecer com muito mais profundidade isso, além do conteúdo que ele passa, seja de geografia, de valores, de política, de história. Ele precisa saber como ensinar. Mas como ensinar não é ensinar para qualquer um. Não é como um radialista, como um jornalista, que precisa saber como se comunicar para o mundo. Não! É se comunicar para uma pessoa específica que é a criança, que não pensa igual um adulto."

As pessoas têm um conceito pobre de educação, porque educação é muito mais do que passar conhecimentos, diz Vítor Paro. A escola precisa ser uma coisa deliciosa, e a ciência já provou que isso é possível, ensina.

"A criança só se prepara para viver se ela viver bem. Viver bem para a criança significa brincar. Então a escola, antes de tudo, um lugar onde pudesse brincar. A primeira coisa que as nossas escolas, baseadas em métodos jesuíticos ainda, do século 16, 17, a primeira coisa que faz é proibir a criança de brincar. Não pode conversar com o outro, não pode conversar na aula. Que aula vagabunda é essa em que não se pode conversar? A escola está toda estruturada para um ensino atrasado. A escola devia estar estrutura em turmas pequenas de crianças, que fossem orientadas por adultos, mas que tivessem o adulto no seu próprio nível. ... Porque é diferente? Existem zilhões de métodos novos que ensinam a criança a brincar. Não é difícil, é muito fácil, e dá para ensinar toda a matemática e geografia, muito mais do que se ensina hoje, e dava ao mesmo tempo para desenvolver a personalidade da pessoa."

Há 200 anos atrás, se você desse chá de camomila para curar úlcera de estômago, estava certo, porque não havia o conhecimento que existe hoje. Em educação, é a mesma coisa, enfatiza Vítor Paro. Existe todo um saber acumulado e construído historicamente de como se ensina maravilhosamente, fazendo as pessoas gostarem de aprender. Só que as pessoas que estão ligadas à educação não sabem disso, e elas fazem o que se fazia há séculos atrás. A educação é uma coisa complexa, que precisa ser feita por pessoas técnicas, que tenham conhecimento. Vítor Paro reconhece que os professores são muito mal pagos e por isso os melhores não são atraídos para as salas de aula. Mas os professores, teoricamente, passaram por um curso de pedagogia e leram grandes educadores como Dewey e Paulo Freire. Mesmo tendo conhecimento da didática não baseada em "professor fala - aluno escuta", ele chega para dar aula com a visão de educação que ele aprendeu desde os bancos escolares.

"Tem uma coisa muito mais forte do que isso. É muito mais forte a educação primária dele, o começo da educação, aquilo que ele aprendeu desde que ele nasceu, que ele formou a sua personalidade... Desde o momento em que nasce, as crianças têm várias fases de desenvolvimento biopsiquico e social. Então uma criança de 3 anos pensa age e sente diferente de uma de 6. Você não ensina álgebra para uma criança de 6 anos, porque ela só vai ter essa capacidade de fazer abstração por volta dos 11. É preciso conhecer essa criança. Só que o professor que está lá, passou por uma escola que também não conhecia criança. Ele introjetou um certo modo de vida, certos preconceitos. É como se você aprendesse a ser racista desde criança, você vai precisar de 30 anos para tirar o racismo da sua cabeça, porque ele é muito forte. O modo de tratar o outro que ele aprendeu na infância é o modo autoritário. Ele não aprendeu a reprovar no curso de pedagogia. ele aprendeu a reprovar sendo reprovado."

É exatamente o modelo desse professor antigo que ele usa sendo professor. O professor explicador só funciona no ensino superior, quando a pessoa já tem a personalidade formada, considera Vítor Paro. Para crianças, precisa passar conhecimento em forma de brincadeira.
O homem já foi à lua e fez transplantes de coração. Coisas impossíveis. Mas o fundamental para ele fazer isso tudo é querer ir.

"Eu não acho que fazer uma educação de verdade é mais difícil do que fazer transplante de coração. Só que antes de fazer essa educação de verdade, antes até de pensar em mais recursos para a educação, nós precisamos saber que educação nós queremos. Se não, nós corremos o risco de gastar mais dinheiro para fazer mais da mesma porcaria que fazemos."

Vítor Paro diz que a evasão de uma criança da escola é um atestado de incompetência da escola.

3 comentários:

Bia disse...

Adriana, li todo seu texto. Bacana as idéias de Vitor Paro. Nao o conhecia, e posso bem ver porquê vc já leu inúmeros de seus livros.
Seus pontos de vista me fizeram refletir. Concordo em muitas coisas que ele diz... É um cara certamente muito conhecedor de causa com quem teria o maior prazer em conversar. Você teve este prazer!
Li recentemente um artigo numa revista quinzenal (de qualidade9 aqui na Alemanha, sobre a qualidade do ensino no mundo. Em primeiro lugar, sem concorrência, está a Finlândia! Por que? Eles nao ministram a educacao do aprender de cór, do repetir. Ali os alunos sao levados a refletir. Achei superinteressante! Em seguida vem a Coréia, em questao de qualidade de ensino.
Penso que é bastante frustrante, principalmente na mais tenra idade, ou seja, lá por volta dos 5, 6 anos, o aluno ser obrigado a se comportar como num quartel general. Só se fala em disciplina, em seguir regras. A crianca nao tem direito de ser de fato crianca, de experimentar. O que vemos em nossos dias é uma educacao robô, uma educacao de repeticao. O que é lamentável. O verdadeiro saber nao pode ser aquele que se aprendeu de cór nos livros. O verdadeiro saber deveria ser aquele que você questionou, experimentou e comprovou. Das mais diferentes maneiras.
Obrigada pelo instante reflexao que vc nos proporcionou, Dri !

Dionne disse...

Vitor Paro com a sua lucidez certamente seria um bálsamo na vida dos estudantes entediados e sem motivação. Infelizmente os jovens não chegam a ter acesso aos seus pensamentos, não tem argumentos para alterar o estado das coisas e a escola continua a mesma mesmisse porque é mais fácil deixar tudo como está. As pessoas temem as mudanças, até mesmo os pretensos educadores. Que mais pessoas possam acessar o seu blog. Mandei o texto para a minha cunhada que é professora. Bjs.

Dri Viaro disse...

Oi. to passando pra conhecer seu blog, e desejar otimo fds
bjs

aguardo sua visita :)